terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A 5ª Onda

Novo filme de uma adolescente envolvida em uma aventura fantástica dentro de um triângulo amoroso demonstra mais do mesmo e pouca coisa interessante em meio à ação e catástrofe.


A quantidade de filmes com garotas adolescentes envolvidas em triângulos amororos nos últimos anos tem sido algo espantoso, capaz de fazer qualquer um se confundir a respeito de qual protagonista está envolvida em qual triângulo e em qual filme tudo isso acontece. Isso, ao lado da predominância de adaptações de livros e quadrinhos que tem se tornado uma muleta de Hollywood, demonstra a enorme preguiça de roteiristas, diretores e produtores em se debruçarem sobre algum projeto mais ambicioso, inteligente e ousado.

Adaptações e histórias adolescentes não seriam algo ruim se os exemplares exibidos nos cinemas não fossem tão medíocres como este A 5ª Onda (The 5th Wave / EUA / 2016) baseado no livro homônimo escrito por Rick Yancey, que não li. Mas aqui não se trata de analisar o original (embora, claro, seja natural que qualquer história fique seriamente comprometida se o material de referência não tiver certo nível de qualidade). E, ao considerarmos isso, o primeiro ponto negativo aparece quando a trama se utiliza de várias fórmulas fáceis para cativar um público bem segmentado, sem a preocupação de fazê-lo pensar. Daí a inserção de garotos-colírio, alguma personagem feminina que demonstre uma personalidade mais forte (muito mais com a intenção de fazer humor do que com o objetivo de ressaltar alguma discussão mais profunda), conflitos familiares e, como já dito, um triângulo amoroso com rapazes de corpo padrão de beleza.

A ideia até é original e interessante: extraterrestres invadem o planeta e promovem uma aniquilação dos seres humanos. Esse extermínio ocorre em várias fases, eliminando aos poucos a população numa espécie de seleção natural (os mais fracos morrem primeiro). Ocorrem, portanto, quatro catástrofes que atrapalham a sobrevivência das pessoas. O quinto evento, que dá o título ao longa, é o que a protagonista precisa descobrir para evitar a morte ao lado de amigos e familiares.

O primeiro erro do filme é a obviedade. Algumas coisas ficam difíceis de falar para evitar spoilers, mas aqui vai uma dica importante: a chamada Primeira Onda foi o desligamento de todos os aparelhos eletrônicos, motores, máquinas e similares. E se o filme diz que há Outros (como são chamados os alienígenas) disfarçados de humanos, e alguns humanos usam máquinas que funcionam normalmente, qualquer mistério que queira ser feito a respeito disso fica completamente invalidado.

Outro erro é a improbabilidade de certas coisas e a falta de explicações críveis para que elas ocorram. Por que, afinal, o exército decide recrutar crianças para uma guerra contra seres altamente desenvolvidos? Qual a lógica disso? E mesmo quando o filme tenta explicar, a pergunta fica sem uma resposta convincente, uma vez que mesmo com a justificativa dada ainda não fica comprovado que só garotos e garotas desempenhariam a missão como esperado.

Além disso, em certo momento, os extraterrestres são apresentados como tendo uma força sobrehumana. Algumas cenas depois, no entanto, certos adolescentes conseguem dominar os inimigos sem nenhuma dificuldade grandiosa. A tensão e a expectativa, assim, caem por terra, uma vez que em nenhum momento temos a sensação de que os personagens estão de alguma maneira verdadeiramente ameaçados.

A própria inteligência das criaturas, exaltada no primeiro ato com as grandiosas cenas catastróficas, não se sustenta ao longo da história. Sem esquecer de mencionar a facilidade com que crianças manipulam armas de fogo, sem se assustarem e sem apresentarem dificuldades visíveis em utilizar tais equipamentos.

Ainda que o clima do filme sugira um ambiente apocalíptico, nenhum personagem demonstra claramente preocupação, medo, aflição, angústia, terror, solidão, pavor. Todos parecem estar em uma brincadeira (embora aparentemente séria), mas ainda uma brincadeira de acampamento de verão.

E por falar em expressões, nenhuma atuação é digna de nota (tanto que até aqui não senti nenhuma necessidade em destacar nenhuma característica dos atores). Ninguém consegue ser tão ruim como Robert Pattinson, por exemplo, mas as caras e bocas, a falsidade no choro e na tentativa de demonstrar preocupação e os traquejos clichês em determinadas situações (como correr para fugir de certo sofrimento e esbarrar, cair em folhas secas na floresta) transmitem pouca emoção e quase nada de verdade. Quase um dramalhão de novela mexicana.

A protagonista, Cassie Sullivan, vivida por Chloë Grace Moretz, parece sofrer bem menos do que as situações lhe impõem. Sua paixão do colégio, o galãzinho Ben Parish (Nick Robinson) é um dos únicos adolescentes que apresenta alguma angústia, embora o roteiro não lhe permita se desenvolver melhor. O novato Alex Roe, que faz um garoto que Cassie conhece pelo caminho (o bonitão Evan Walker), está mais preocupado em mostrar sua beleza, sorriso e músculos do que em atuar (parece até uma versão masculina da Megan Fox: nunca fecha a boca, exibindo o filme inteiro seus dentões).

Prometendo ser uma aventura cheia de catástrofe e ação contra alienígenas, A 5ª Onda termina apenas como um filme dispensável, uma história fraca, sem coesão, personagens unidimensionais, atores sem vontade de desempenhar seus papéis, vivenciando situações absurdas e irreais (no sentido de não críveis, como disse), contra inimigos que pouco metem medo.

O pior é saber que, pra não fugir à regra, teremos mais dois filmes sobre essa história insossa. Malditos ETs que não conseguiram matar todo mundo no primeiro filme!

 

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